16 de julho de 2011

O meu pensamento, a minha memória, a minha ansiedade, o meu sangue estão carregados de você.
Você vive dentro de mim e em todos os momentos manifestas-se, como que obrigando-me a não te esquecer.
E eu não te esqueço.
Sinto-te sempre em mim....e...
Sinto-te sempre tão distante.....
Falta o toque na pele, o som da respiração, o cheiro do corpo, a angústia do seu acordar,
o olhar olhos nos olhos, o arrepio dos toques, o sabor dos beijos...
Faltam aquelas coisas das quais o meu corpo nunca teve ...

14 de julho de 2011

Há dias que tenho pensado na vida.
Pensado em meses, em bancos e livros, em uma camiseta vermelha.
E em um doce sorriso que eu nunca mais pude ver. A vida tem dessas coisas escondidas, desses arrependimentos quietos.
E tem amor.
O tempo fez com que eu perdesse qualquer esperança.
Perdão pelas inúmeras vezes em que atrapalhei o ciclo do seu sorriso.
Ninguém espera o fim.
Eu vivo na sombra de uma foto antiga.
Eu sinto sua falta, assim, de um jeito bem irrefletido, desinformado.
Eu realmente te perdi. Essa carta é outra que nunca vai chegar à sua mão, ela sempre é destruída, ainda em forma de pensamento.
Ando, com coração desritmado por medo de interferir na sua felicidade. Eu te quero bem.
Seria melhor aqui. Mas te quero bem assim, longe, também.
Até um tempo atrás eu te diria bem, como é ser lembrança de dor.
Eu acostumei com as ausências. O tempo acaba com a gente, você vai me entender.
Eu troquei de rua, de roupa, de rancor, mas não deixei esse olhar baixo.
Minha vida anda cheia, e eu não tenho interesse pra absolutamente nada.
Falta pouco mais de um ano  e eu finjo notar estrelas mais apagadas.
Eu sinto um frio maior quando coloco o casaco. Já passou meio ano com jeito de três séculos, e eu nunca saí daquela fileira de livros em que te encontrei.
Eu pesei tanto durante esse tempo, aquele nosso “sei lá” nunca teve significado claro pra mim.
E mesmo assim eu te “sei lá” durante todo esse tempo.
Você me doeu. Eu subi todos os andares da tristeza, sozinha.
Eu escondi seu nome dentro de uma gaveta cheia de papéis velhos, coisas velhas, lembranças e amores, quem sabe assim eu poderia dizer: Passado.
E mesmo assim eu te senti nos sonhos mais escuros e em todas as vírgulas da minha vida. Eu te soltei no vento quando eu deveria ter te abraçado.
Hoje eu não volto, nem amanhã, apesar do egoísmo. Pois não me permitiria tirar outro sorriso teu, por isso vivo nesse silêncio apertado.
Mas saiba, que de segunda-feira a dezembro, meu coração cuidou bem desse amor.
Queria que soubesse mesmo assim, sem saber, que eu espero a sua volta.
Lá no nosso sempre...

10 de julho de 2011

Amar é procurar cabelos para completar as mãos, é procurar o que não se viveu para contar.
É esperar o sol aquecer o lado ileso da cama.
É não apagar direito a ausência, a letra, o cheiro.
É insistir com respostas sem as perguntas.
Adiar o amor ainda é cumpri-lo.
Fingir que não se sente é exercê-lo.
O amor devora os sobreviventes.
Não lembra do pente, da navalha, da tesoura de unhas, do jornal, do abajur.
O amor não lembra do que precisa. Amor é não precisar de nada.
É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça.
O amor confunde para se chegar ao mistério.
Embaralha para não se ouvir.
Perde-se no próprio amor a capacidade de amar.
Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta. O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes.
O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso.
O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada.
O amor é um desencontro por dentro.

8 de julho de 2011

Não queria,desde o começo eu não quis.Desde que senti que ia cair e me quebrar inteira na queda para depois restar incompleta,destruída talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morta, mais indefinida - e seria preciso restruturar verdades,seria preciso ir construindo tudo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou. Mas o dilaceramento foi só meu, como só foi meu o desespero.

5 de julho de 2011

O amor não acaba. O amor apenas sai do centro das nossas atenções. O tempo desenvolve nossas defesas, nos oferece outras possibilidades e a gente avança porque é da natureza humana avançar. Não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice. Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa."








Martha Medeiros

29 de junho de 2011

Noite vazia

"Você me ligou naquela tarde vazia", sempre que ouço essa música acredito ser um presságio. Não era de minhas músicas preferidas, nem das bandas que mais me fazem companhia, mas é um frase que me toca. Quantas vezes, com essa frase na cabeça  criei histórias. Ah. Crio histórias com tudo, na verdade.

Talvez, seja um mal dos solitários. Solitários não, isso é muito triste. E afinal, tenho os amigos. Só não tenho alguém que  ligasse numa tarde vazia, e fizesse valer o dia. Então invento.
E invento cabelos ao vento, bochechas rosadas, e lábios levemente rachados. Não só o frio racha lábios, calor humano também. Enfim olho o lado, a janela e a neblina que começa a enfumaçar o vidro. Fecho as cortinas, e ligo a tv. O telefone não vai tocar mais naquela tarde vazia... pois esta já virou  noite.

28 de junho de 2011

Ninguém



Sapato baixo,calça larga e cabelo preso.Esquentou e seus ombros tensos agradecem.Que cara bonita é essa?Já logo no elevador.
Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonita hoje. Um fala, outro concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é? Que segredo ela guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? No estacionamento perguntam: voltou com alguém? No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo "nossa, você tá muito... é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir".
Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis pink ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho. Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, estudo, yoga, massagem, dormir, bobeiras, pilates, comer, rir, cabelo, filmes, comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que a ocupa de ser ela e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Linda, ela segue. Linda e feliz como nunca.
O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinha, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ela pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que a espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento.



(Tati Bernardi)